*Alunos e professores se emocionaram com os depoimentos dos reeducandos, que deram testemunho dos caminhos a não serem seguidos

Os estudantes da Escola Estadual Prefeito Jacy Junqueira Gazola encerraram o primeiro semestre do ano letivo, nesta sexta-feira (14), com a apresentação do Coral Raízes do Futuro do Presídio de Varginha, que integra o projeto “A função das instituições sociais e o propósito do sistema carcerário”.

O projeto abrange 500 estudantes do ensino médio do turno matutino da Escola e foi desenvolvido pela professora de sociologia Paula Figueiredo Campos. O projeto atraiu os adolescentes e jovens para gerar reflexão sobre temas sociais relevantes, como dignidade humana e condições de vida dos presos, políticas prisionais, pena de morte, prisão perpétua, desarmamento da população, criminalidade, segurança pública, sistema prisional, relações de poder na sociedade brasileira, entre outros. Outra intenção do projeto é despertar a solidariedade para com as realidades humanas fragilizadas e marginalizadas. A professora explicou que os alunos como as outras pessoas tem regras a seguir. Quem se impõe a elas, acabam sofrendo sanções, como nos crimes, ao sistema penitenciário que priva as pessoas da liberdade. “Nós pegamos como foco o sistema prisional como forma de demonstrar que é preciso informação e opinião para seguir uma vida reta, mas também sensibilizá-los de que tenham um diferente da sociedade aos detentos que tem a oportunidade de se regenerarem e se tornarem pessoas melhores, vendo o mundo de forma esperançosa”, contou a professora.

A apresentação do Coral durante aproximadamente uma hora emocionou muita gente. Arrancou aplausos ao mostrar a afinação provando porque são tão requisitados para eventos e até festivais no Sul de Minas e até em Belo Horizonte, mas também levou as lágrimas com suas histórias de vida e testemunho de que o mundo do crime não compensa. O último dia de aula antes das férias foi certamente inesquecível.

Na quadra da Escola, estudantes do Jacy acompanharam a apresentação, cantaram juntos e se emocionaram

Entre uma e outra canção, como de Zezé de Camargo e Luciano “No dia em que sai de casa”, a reeducanda Vanessa de Andrade Silva de 25 anos, contou um pouco da sua história que começou em Monsenhor Paulo e foi impossível não se emocionar. Ela foi parar atrás das grades acusada de tráfico e associação ao tráfico de drogas. Está no Presídio de Varginha desde novembro do ano passado.

É de família boa, tinha um bom emprego, trabalhava como analista de recursos humanos, nunca precisou cometer qualquer crime, mas se casou com um rapaz que durante muito tempo serviu o tráfico de drogas.

Vanessa diz que não usava, muito menos vendia, mas consentia a atuação de seu então companheiro. Até ele ser preso em setembro de 2016 e ela dois meses depois. Ela foi presa enquanto trabalhava e sabia que tinha certa parcela de culpa, porque aceitava a situação.  Os dois hoje estão separados. Ele está em Pouso Alegre e ela em Varginha. O diferencial da sua vida mesmo que presa é viver uma vida melhor. Além de se destacar por sua beleza, Vanessa mostra desenvoltura com o microfone, é comunicativa, trabalha de segunda a sexta-feira com os filhos e filhas dos reeducandos e integra o Coral que tem sido um diferencial nesta etapa de sua vida.

Se dirigindo aos estudantes que atentos a observavam, a jovem deu alguns conselhos para que eles não façam escolhas erradas. “Quando a gente se envolve no crime, a gente se afasta da família e perde tudo. Não me adiantou nada ter uma boa educação, ter estudado e feito uma escolha que mudou para sempre a minha vida. Deem valor na cama que vocês tem, o cobertor que o esquentam do frio, o banho quente que tomam todos os dias, o café que bebem e o que apreendem com seus professores. Se esforcem para que o futuro de vocês não seja o meu presente”, revelou. O que ela mais tem saudade é de sua mãe e se lembra bem dos conselhos que ouvia.

Vanessa foi ouvida pela Justiça a três meses, mas ainda não sabe quanto tempo ainda vai ficar na prisão. Mais uma coisa é certa. Vai sair de lá melhor do que entrou, sabendo que não vale a pena mentir e cometer os mesmos erros.

Almir Felizardo tem 60 anos e é outro reeducando que está disposto a mudar de vida. Além do Coral, ele faz faculdade de Direito depois participar do Enem dentro da própria unidade. Velho conhecido no esporte em Três Pontas foi árbitro de futebol e já apitou muitas decisões na cidade. Ele é de Varginha e em 2008 participou do roubo a um carro forte na Rodovia Fernão Dias, perto de Carmo da Cachoeira. Em 2016 já nas ruas, foi preso acusado de tráfico de drogas e condenado a seis anos de prisão.

O encerramento foi com a canção Oração pela Família de Padre Zezinho, que teve a participação do vice diretor da Escola Presidente Tancredo Neves Mário Fernandes de Carvalho, que assistiu a apresentação ao lado do secretário municipal de Educação Paulo Vitor da Silva, diretores, professores e funcionários da Escola Jacy Gazola.

O Coral

O coral Raízes do Futuro existe há 7 anos, formado por detentos da comarca de Varginha, tem como objetivo a reinserção social dos presos por meio da música. Desde 2012 é coordenado pelo professor maestro Elias de Brito Pereira e tem o apoio dos diretores da Unidade Prisional. Sua formação muda na medida em que os detentos ganham liberdade.

A iniciativa foi do juiz da 1ª Vara Criminal e de Execuções Penais, Oilson Nunes dos Santos Hoffmann Schmitt, em parceria com o Centro Universitário do Sul de Minas. Ele surgiu da vontade de oferecer aos detentos uma atividade cultural e socializadora que auxiliassem os detentos no desenvolvimento da capacidade de interação intrapessoal e interpessoal.

Eles já se apresentaram em diversas localidades, participaram de festivais e homenagens e receberam mais de 14 prêmios, entre eles duas vezes campeão consecutivo do Festival Prisional (Festipri).

Assista a transmissão da apresentação do Coral Raízes do Futuro

COMPARTILHAR

Comentários