Três Pontas perdeu nesta sexta (13), um dos baloartes do café. Morreu no Hospital Humanitas em Varginha, aos 92 anos, José Carvalho Miranda, o Deca Miranda. Ele teve pneumonia há tempo, o caso evoluiu e foi se agravando apesar dos tratamentos realizados. Deca Miranda deixa 12 filhos, mais de 30 netos e alguns bisnetos. Ele sempre dava notícia da vida de todos eles e fazia questão de reunir a família inteira aos domingos para o almoço.

O fazendeiro que viveu um pouco de tudo nessa vida. Trabalhou muito, divertiu muito, ajudou muitas pessoas e foi um dos responsáveis pela cidade ter a Expocafé, que começou em sua propriedade, na zona rural e depois foi transferido para a Fazenda Experimental da Epamig.

Deca foi um tradicional cafeicultor da cidade de Três Pontas e foi personagem da página, Gente da Terra, no jornal da Cocatrel. O veículo contou a história dele, um dos 7 filhos de Urbano Garcia de Miranda e Maria Inês  de Carvalho.  Quando tinha apenas oito anos seu pai faleceu e ele passou a ajudar sua mãe na lida da terra. “Éramos 7 irmãos. Minha mãe casou-se com Quinzinho Miranda, que era meu tio, irmão do meu pai e eles tiveram mais cinco filhos”, contou. Quinzinho já tinha nove filhos do primeiro casamento. Assim, passaram a viver na Fazenda Pinhal, 21 filhos, de casamentos diferentes, mas criados como irmãos.

Aos 18 anos foi servir o exército. “Fiz o Tiro de Guerra aqui em Três Pontas, mas ia de trem quase todo dia fazer instrução em Três Corações, na cavalaria”. Destacou-se entre os soldados e tornou-se tenente da cavalaria. “Nesta época cheguei até a arriar cavalo para o Getúlio Vargas”, revelou.

Depois de alguns meses foi transferido para Jundiaí e passou a fazer parte da artilharia. “Lá ganhei o posto de Sargento da Artilharia. Fomos convocados para irmos à guerra. Sairíamos de Jundiaí para o Rio de Janeiro num domingo e na segunda feira viajaríamos para a Itália. A guerra terminou no sábado e nós não precisamos mais ir. Aí foi só festa”.

Deca voltou para Três Pontas e, em parceria com seu tio Totonho Miranda, alugou um sítio que tinha uma venda, no Mato Seco. “Trabalhamos por quatro anos por lá até que fizemos sociedade com o João Chaves para cuidar da Fazenda Retiro da Telha, na Lajinha. Nesta época me casei com a Terezinha, moramos lá por 17 anos”.  Ele contou que a venda era muito movimentada e lhes rendeu um bom dinheiro para começar a adquirir seu patrimônio, que começou pelas terras em Coqueiral.

Passado o tempo, vendeu estas terras e comprou a Fazenda São Sebastião, aqui em Três Pontas. Ele disse com orgulho e satisfação que, quando adquiriu a fazenda ela tinha 180 alqueires e na época da entrevista em 2015 já acumulava 500 alqueires. “Fui financiando dinheiro no IBC e plantando cada vez mais café. Tirei o café que tinha na ladeira e fui plantando na parte plana da fazenda. Ninguém aqui antes tinha plantado café no cerrado, daí vinha um povão para ver como que isso funcionava. Fui comprando as fazendas do entorno, inclusive um terreno onde seria construído um campo de aviação. Hoje não financio mais nada. Compro tudo à vista. A Fazenda tem 200 alqueires de café e colhe cerca de 12 mil sacos por ano. “Sou sócio das cooperativas de Três Pontas, de Varginha, de Guaxupé, de Boa Esperança e de São Sebastião do Paraíso. Já tive mais propriedades mas passei tudo para os meus filhos, todos eles possuem uma terrinha”.

A diversificação também faz parte dos negócios da fazenda, que hoje possuia mais de mil cabeças de gado de corte das raças Tabapuã, Nelore e Guzerá, cerca de 200 búfalos, carneiro, porco, pato, ganso, marreco entre outros.

Deca também sempre teve orgulho em falar dos seus funcionários. Segundo ele, mão de obra nunca foi problema na Fazenda São Sebastião.

Deca era um dos 130 sócios fundadores da Cocatrel. Ele também foi, juntamente com o Zé Maria Rabelo, Dr. Odilon e o Antônio Mauro, fundador do Sindicato Patronal de Três Pontas, que funcionava onde hoje é a FATEPS.  Foi o sindicato que deu início às antigas exposições agropecuárias da cidade, famosas por durarem cerca de 10 dias e que grande parte da população sente muita falta. Dizem que nesta época, o Deca, violeiro de primeira, passava dias tocando e cantando para animar a turma que ia prestigiar o evento.

Outra importante exposição que ele acreditou e incentivou foi a Expocafé. O desafio maior dos organizadores, na época a UFLA, seria encontrar um local para realizar a feira. Pois o Deca abriu as portas da sua fazenda para receber uma multidão de pessoas, durante três dias, por quatro anos consecutivos.

Outro ponto importante a ser salientado é o respeito que Deca tinha pela natureza e o gosto pelas flores e plantas. Este seu respeito pelo meio ambiente rendeu-lhe uma homenagem prestada pela Associação Regional dos Engenheiros e Arquitetos, (AREA) no Dia do Campo Limpo, e também pela Cocatrel.

Depois de muitos anos de trabalho, quando estava com 90 anos Deca fez um balanço de tudo que viveu. “Já fiz um pouco de tudo nessa vida. Mas só quem trabalha é que sabe mandar no serviço. Quem não sabe como é que faz, vai mandar como? Outra de suas teorias é a de que quando se faz pelos outros, pensando nos mais necessitados, só coisas boas acontecem de volta. “Diz o ditado que quem dá aos pobres empresta a Deus”, acredito que comigo tenha sido bem assim. Tenho muita sorte e sou muito grato por tudo que conquistei”. (Fonte: Jornal Cocatrel – Agradecimentos à Assessoria de Comunicação. Foto: redes sociais)

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