Por Ana Gabriela Brito Melo Rocha, cidadã, trespontana de coração e promotora de justiça

Recentemente, todos ficamos estarrecidos com os fatos revelados pela “Operação Trem Fantasma”. Como, diante do sucateamento de serviços públicos por falta de verbas, servidores públicos e empresários localmente conhecidos tiveram a coragem de participar, de alguma forma, do desvio de dinheiro público?

Certas pessoas expressaram o sentimento de indignação nas proximidades da Delegacia de Polícia Civil ou do Ministério Público. Alguns se manifestaram de forma a censurar os envolvidos em redes sociais e aplicativos como WhatsApp. Muitos desabafaram quanto à insatisfação com familiares, amigos, colegas de trabalho e vizinhos. Realmente, trata-se de uma situação lamentável e é esperado que o horror expresso nos faça sentir que somos diferentes: nós, “os cidadãos honestos”, e eles, “os criminosos”, aqueles que devem ser marcados e que fizeram por merecer as vaias e outras formas de humilhações.

Escrevo este texto após ter tomado conhecimento de que, depois de anunciada a greve dos caminhoneiros, diversos comerciantes, aproveitando o momento de histeria coletiva, aumentaram, de modo abusivo, os preços das mercadorias, uma vez que viram uma oportunidade de lucrar mais. Lado outro, consumidores com maior disponibilidade econômica chegaram a comprar dois e até mesmo três botijões de gás, pagando de R$ 90,00 a R$ 110,00 em cada unidade para “fazer estoque”. A qual custo ético, social e cultural, tudo isso ocorre?

Pessoas menos abastadas mal conseguem fazer ‘’a compra do mês’’ com os preços regulares. Assim quando, em um cenário de escassez, comerciantes praticam preços extorsivos e encontram consumidores dispostos a pagar pelo que não necessitam de fato, ambas as partes estão comprometendo o acesso a itens básicos de famílias, muitas vezes, mais numerosas e com maiores necessidades.

Para além da responsabilidade civil ou criminal dos fornecedores que se aproveitam do momento de instabilidade para aumentar os lucros de maneira desmedida, sem qualquer responsabilidade social, e da ilusão dos consumidores que acreditam estar se protegendo de futuros desconfortos, é preciso alertar a todos e a todas que a questão é muito mais profunda e tem a ver com corrupção, com descompromisso com o interesse público e, principalmente, com o esquecimento de valores éticos. Isso, sem mencionar o afastamento de valores cristãos, tão proclamados na querida Terra do Padre Victor.

Injustiças geram revolta e violência.

Em uma sociedade na qual poucos têm acesso a bens essenciais, escancara-se a porta para a entrada do caos social, no qual os saques talvez nem sejam os maiores problemas.

É preciso que priorizemos todos os abastecimentos de serviços fundamentais, como aqueles prestados por APAE, Vila Vicentina, Santa Casa de Misericórdia, Presídio e outros, bem como que racionemos os recursos, a fim de propiciar que o maior número possível de pessoas a eles tenha acesso.

Que tranquilidade terá o cidadão que estocou quilos e mais quilos de alimentos, se houver a soltura de todos os presos atualmente custodiados no presídio em razão da falta de bens essenciais na unidade prisional? Caso o comerciante que muito lucrou com a greve seja vítima de um crime, como poderá ser atendido pela Polícia, se as viaturas estiverem paradas por falta de combustível? Poderíamos dormir tranquilos sabendo que idosos, crianças e enfermos estão impossibilitados de se alimentar adequadamente em razão da falta de gás de cozinha ou que alguém deixou de fazer uma cirurgia de urgência e está correndo risco de morte, porque “espertos” furaram a fila ou conseguiram, abastecer, sem limite, seus veículos?

Tanto a “Operação Trem Fantasma” como a situação causada pela greve dos caminhoneiros trazem oportunidades importantes para que nós pensemos como uma rede, como um espaço no qual todas e todos possuímos o direito de termos nossas reais necessidades atendidas, desde que de forma razoável e sem causar danos a terceiros ou à comunidade.

Tudo e todos estamos conectados. Olhemos para além dos nossos próprios umbigos e enxerguemos também os outros e a coletividade da qual fazemos parte.

Até a normalização da situação e o retorno do abastecimento regular, será preciso racionar a distribuição e o uso de bens e recursos, bem como priorizar setores mais sensíveis. Compreendamos e cooperemos todos. Façamos a nossa parte!

O poder de construir uma realidade mais justa e harmônica está nas mãos de cada um de nós e deve ser exercitado cotidianamente, a fim de que ensinemos nossas crianças e nossos adolescentes que, não importa o contexto, temos o dever de atuar de forma reta e de não colocar interesses individuais acima do bem comum. Como diz a sabedoria popular, “o exemplo arrasta”. Somente praticando de fato tais valores poderemos combater efetivamente a corrupção.

Depende de todos nós, não há heróis ou salvadores.

Deixo essas as reflexões, à véspera do feriado de Corpus Christi, dia destinado à lembrança do Cristo, guia que entregou o corpo, o sangue e toda uma vida para o bem da humanidade.

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