*Intenção é preservar a tradição, agregando novas ideias

Em uma primeira reunião promovida pela Associação Comercial e Agroindustrial de Três Pontas (Acai-TP), na noite desta terça-feira (13), ficou demonstrado que a vontade de lideranças culturais e pessoas envolvidas com a cultura do município de Três Pontas, é que o Carnaval precisa ser resgatado e que não realizar a festa, como aconteceu este ano, trouxe muito além do que o prejuízo na economia local, mas a recordação de que a cidade já promoveu em outras décadas, uma Festa de Momo que atraiu muita gente de vários lugares do Brasil.

O encontro foi um espaço democrático de sugestões e o objetivo um só: resgatar a festa, preservando a tradição dos tempos áureos e agregando novas idéias, a folia que ganhou novos perfis, estilos e inclusive ritmos musicais. O presidente da Acai Bruno Dixini Carvalho (foto) foi quem conduziu a reunião e demonstrou a disposição que a entidade está em oferecer um suporte para a formação da Liga das Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos de Três Pontas, totalmente independente. O empresário Hélio Campos que ficou morando no Nordeste durante 8 anos, se surpreendeu negativamente quando retornou para sua terra natal ao ver o Carnaval. A partir daí, começou a buscar exemplos em cidades de fora, inclusive em localidades onde se resgatou a folia, para instituir um estatuto próprio, capaz de dar responsável e respaldo legal para assumir a organização dos desfiles. Um esboço do que pode ser inicial o estatuto foi apresentado.

As regras específicas de cada desfile deverão ser regidas por um regulamento anual, elaborado a partir do que for decidido, por maioria, dos representantes das agremiações em reunião.

O diretor da Associação Comercial Michel Renan Simão Castro abriu um amplo debate ao afirmar que escolas e blocos não podem esperar tudo do poder público, se referindo a repasses para subsidiar os seus desfiles. É preciso buscar alternativas de festas e eventos ao longo do ano, para garantir os recursos que serão investidos. A liga daria todo suporte e a renda faria com que a Prefeitura fosse responsável pela infraestrutura e logística necessária, como palco, sonorização, banheiros químicos, entre outras necessidades. “Precisamos ser transparentes, fomentar as ideias e nos unirmos para colocarmos em prática imediatamente e não esperar novembro e dezembro para debatermos o assunto”, aconselhou Michel Renan.

O que vai demandar muita conversa é o formato do Carnaval que se pretende fazer em 2019. Não se descartou a volta das tradicionais escolas de samba, porém, os tempos são outros e a principal dificuldade é a falta de dinheiro, aliada a crise financeira acentuada que o país enfrenta.

A ex-secretária de Cultura, Lazer e Turismo Débora Andrade falou que o perfil das festas mudou muito. As agremiações tinham pessoas abnegadas em colocar as escolas na Avenida e hoje não tem mais. Sem falar que o Carnaval se transformou em festa de todos os ritmos. Deixou de ser apenas do samba, chegou o axé, o funk, o sertanejo e até o rock. Há também os carnavais fechados, que levam multidão, mas que talvez não seja este o atrativo que agregue pessoas de todas as idades e condições financeiras.

Todos concordaram que para resgatar a folia, não se pode pensar em uma comemoração modesta. É preciso algo mais para segurar os trespontanos aqui e atrair pessoas de outras localidades. Falando em programação, a maioria de quem estava na reunião na Acai-TP é favorável que a festa tenha hora para começar e termine mais cedo, ao invés de madrugada. Uma das justificativas é a questão da segurança dos foliões e suas famílias e tranquilidade dos moradores, respeitando inclusive aqueles que não gostam de curtir e aproveitam estes dias para descansar. Alguns falaram em matinês, inclusive com a participação das crianças das escolas municipais e estaduais. Outra opção é descentralizar as atrações da Avenida, levando a comemoração aos bairros onde estão os blocos em horários alternativos. Eles já criaram uma grande identidade com o folião trespontano e independente de ser de time de futebol, ou dos amigos que se reúnem, os blocos estão ‘segurando’ o Carnaval desde que as escolas desistiram de desfilar.

Rovilson lembrou do passado e da dedicação das escolas de samba

Bastante experiente quando o assunto é preparar blocos e escolas de samba e ornamentação, Rovilson Andrade fez algumas considerações que foram acompanhadas por representantes dos blocos caricatos que estavam na reunião. O investimento que é feito pelas agremiações é muito alto, para ser obrigado a passar pela Avenida Oswaldo Cruz em 20 minutos. Apontou supostas dificuldades das escolas, que recebia o dinheiro da Prefeitura a poucos dias da festa. Ele se diz testemunha da quantidade de eventos que a Consciência Negra, onde foi carnavalesco fez ao longo dos anos para angariar recursos. “A situação da nossa cidade era outra. Tinha gente que fazia questão de ter fantasias luxuosas e pagava por isso”, recordou Rovilson.

O servidor público Roberto Carlos Pedro, o popular Coelhão, presidente da Escola de Samba Consciência Negra fez duras críticas ao comércio, que segundo ele, nunca se importou em apoiar as escolas. Quando batiam na porta dos estabelecimentos comerciais nunca foram valorizados e sempre ouviam não como resposta quando se tratava de patrocínio ou apoio, mas só se deu conta agora quando não teve mais. Ele revelou que a Consciência Negra é uma escola de gente humilde e trabalhadora, que não tem sede ou galpão, que guarda os materiais que sobraram na casa de amigos, mas que está viva e tem condições sim de voltar. “A Consciência Negra nunca deixou de existir, porque está na veia de cada um que ao longo dos anos passou pela escola”, defendeu Coelhão.

Bruno Carvalho alertou que talvez tenha faltado transparência na aplicação dos recursos e uma prestação de contas detalhada e Coelhão respondeu que a escola não tem dívidas no comércio.

Secretário de Cultura Deivis Victor anunciou que Prefeitura tem dificuldade até mesmo para bancar estrutura para o Carnaval

O secretário de Cultura, Lazer e Turismo Deivis Victor dos Santos falou do sentimento de decepção da Administração ao cancelar o Carnaval, com tudo praticamente pronto. Ele lembrou que a festa deste ano estava orçada em R$117 mil, valor pequeno se fazer Carnaval na cidade e no Distrito do Pontalete. Frisando bem a situação financeira que Três Pontas enfrenta, juntamente com os outros municípios, o secretário alertou para que não se pode mais confiar nem mesmo que a Prefeitura vá bancar as despesas com a infraestrutura. Esperar por isto é correr risco, pois a demanda é pesada. Michel Renan concordou que não pode tudo ficar a mercê do poder público, mas que a Prefeitura precisa o pilar.

Na sugestão apresentada por Hélio Campos sobre a formação da Liga Independente das Escolas e Blocos, a sugestão apresentada por é que a diretoria seja composta por oito pessoas, nos cargos de: presidente, vice presidente, diretor financeiro e patrimonial, diretor administrativo, marketing e comercial, conselheiros titulares, suplentes, conselheiro fiscal suplente e diretor jurídico.

A Liga será a organizadora e responsável pelos desfiles no Carnaval de 2019 e também pela direção artística e apuração do resultado do desfile, em caso de disputa.

A questão é como ela receberia os recursos repassados pelo Município por questões legais, como a necessidade de ter o Decreto de Utilidade Pública. Uma das opções talvez seria repassar o recurso à Associação Comercial que poderia contratar os serviços para montar a estrutura e ainda garantir preços melhores do que o Município.

Na próxima terça-feira, dia 20, as 19:00 horas, uma nova reunião está marcada já para a formatação do estatuto e escolha dos diretores.

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