Cleusa Figueiredo – Jornal Correio Trespontano

Em reunião acontecida no dia 19 de dezembro, na Associação Comercial de Três Pontas, para debate sobre os resultados negativos\positivos do fechamento do comércio aos sábados às 13 horas, o presidente Michel Renan Simão Castro se irritou com o reduzido número de participantes. Atualmente com cerca de 450 associados, dos quais apenas 43 compareceram, a Associação, por falta de quórum, não teve como levar adiante o encontro que discutiria a queda nas vendas e o anúncio de demissões já neste início de ano.

A lei de 2010, determinante do fechamento do comércio às 13 horas aos sábados, começou a vigorar em novembro último. Desde então as opiniões entre comerciantes se dividiram: de um lado aqueles que aprovaram, argumentando que o consumidor dispõe de bastante tempo para comprar durante a semana e no sábado até 13 horas – além de defenderem o direito dos funcionários ao descanso, e de outro os que já sinalizaram com redução de pessoal em vista dos prejuízos. O presidente Michel Renan declarou, na ocasião, que promoveu e anunciou a reunião em vista da grande quantidade de telefonemas solicitando a discussão, e afirmou que “a ausência de tanta gente demonstra que há omissão, conivência ou que tudo está dentro daquilo que os comerciantes esperam; pelo jeito, há uma enorme satisfação com prejuízos agora e maiores ainda no começo do ano”. Michel enfatizou ainda que sempre defendeu a classe, já foi hostilizado por colaboradores e que nada pode fazer sozinho.

A ausência de vereadores na reunião foi notada e levou o presidente da ACAITP a dizer que os mesmos não foram convidados e nem qualquer representante do Poder Executivo, pois “os vereadores não votam em benefício do povo, mas do Poder Executivo. Em reunião no dia 16 de dezembro, na Câmara Municipal, os comerciantes foram desprezados e tratados como palhaços. Naquela sessão, foi votado um projeto de lei do vereador Paulo Vitor da Silva, pedindo a revogação da Taxa de Inspeção da Vigilância Sanitária. A maioria foi contra e a cobrança será feita a partir de janeiro”.

michel renanMichel Renan conversou com o Jornal a respeito da polêmica reunião na ACAITP:

CT) A reunião na Associação Comercial no dia 19 último teve como objetivo debater prejuízos que comerciantes sofrem pelo fato de o comércio ter que fechar as portas aos sábados às 13 horas e medidas a serem tomadas para reverter essa situação. Há como mudar ou repensar a lei de 2010, que passou avigorar na cidade em novembro deste ano?

MR)Primeiramente, gostaria de agradecer pela oportunidade para minha manifestação. Como representante da ACAITP, recebi algumas solicitações para que fossem convocados os associados para discutirmos a dimensão das perdas ora ocorridas e possibilidades de que essa lei fosse revista. Quero que fique bem transparente que, como representante da classe, não posso omitir ou ignorar pedidos de associados, e em qualquer reunião que venha a ocorrer colherei a manifestação, verificando a vontade da maioria, pois, como somos regidos por um regime democrático, a maioria decide. Mas também necessitamos de um número expressivo para que haja discussão e impedindo ou dificultando questionamentos futuros, e quem estava presente percebeu minhas palavras, quando disse que: -“Não havendo massiva presença eu nada farei”, pois entendo que a maioria ali, não estando presente, está satisfeita com o horário que vigora. Entretanto, toda reivindicação deve ser ouvida, vez que, não seja, a Associação perde seu sentido.

No seu entendimento, qual é o percentual de comerciantes insatisfeitos com a lei?

Esta convocação foi feita para que tivéssemos este número, mas estavam presentes apenas 43 empresários. Muitos ligaram e disseram não poderem comparecer devido à proximidade do Natal. Solicitaram ainda um outro encontro, que irá ocorrer dia 06 de fevereiro próximo, às 19:30 horas, na sede da ACAITP, onde será apresentado um levantamento com todos os associados e demais empresários não associados que queiram se manifestar. Três perguntas serão feitas: Se o horário de fechamento às 13:00 horas trouxe algum prejuízo ou diminuição de vendas; caso tenha trazido, o percentual; sugestão de um horário. Vem a seguir o nome da empresa, proprietário, dia e hora (somente se manifestarão os proprietários ou procuradores). Após colhidos estes números e com a presença de dois advogados, os quais poderão ser indagados sobre questionamentos diversos de possíveis mudanças na lei, serão divulgados tais números. Masque fique claro: caso haja poucos presentes, os desfavorecidos ou lesados com o horário não mais deverão reclamar, pois a oportunidade será esta e o lugar é o adequado para discussões. Se não houver união da classe, seus interesses jamais serão ouvidos ou respeitados e os atropelos por parte de alguns poderes públicos continuarão a ocorrer.

Seria correto afirmar que os supermercados levam vantagem com a lei, uma vez que podem permanecer abertos e oferecem, além de gêneros alimentícios, roupas, sapatos, brinquedos, artigos para presentes, etc.?

Podem ocorrer perdas sim, porém as pessoas privilegiam as lojas habituais de compras. O tempo é escasso em nossos dias, e se já existem laços estreitos, esse cliente somente irá comprar noutro estabelecimento caso não tenha sido atendido de acordo com os princípios adequados, não encontrar aquilo de que necessita ou, ainda, se o produto estiver caro. Mas se a loja não estiver aberta, devemos nos lembrar daquele dito popular: – “Na falta de tu, vai tu mesmo”. Ademais, o comércio em geral tem uma flexibilidade maior nos meios de pagamento, o que não ocorre nos supermercados. Existem possibilidades de negócios para todos, e os mais preparados venderão mais. Meu maior receio quanto ao horário é a inauguração do shopping na cidade de Varginha, atrativo este que oferecerá uma flexibilização muito expressiva nos horários de atendimento.

Como presidente da Associação Comercial, qual é a saída para esse impasse? Há como conciliar os pontos de vista de quem quer e de quem não quer o fechamento aos sábados às 13 horas?

Sou e sempre serei a favor do diálogo, única maneira de as pessoas encontrarem entendimentos menos prejudiciais para as partes. O acordo é o atenuador de prejuízos. Caso não seja o que as pessoas queriam, é a maneira menos prejudicial ou menos traumática, pois saem depois do acordo sem mágoas, uma vez que houve tentativa de acerto. Somente com o diálogo haverá entendimento. Caso não haja, alguma parte sempre se sentirá prejudicada e sempre vai querer revidar ou vingar a perda. Com certeza, o consumidor fica prejudicado com o fechamento do comércio mais cedo, aos sábados; por outro lado, funcionários também precisam descansar. Qual seria a solução? Jamais quero ou quis que alguém fosse prejudicado, independente de ser empresário ou colaborador. A liberdade é uma das maiores benesses em nossas vidas e não devemos ser cerceados. Quem quiser abrir que abra, quem não quiser não abra. Não devemos ser influenciáveis – se o outro fechar eu fecho; do contrário, não fecho. Mas minha sugestão seria dois sábados os que iniciam o mês até 15:00 horas; e os demais, dois sábados até 13:00 horas.

Se não é o esperado, é uma possibilidade de acerto, e acredito ser uma maneira de colocar um ponto final nas discussões e trazer harmonia, favorecendo e proporcionando melhoria a todos. Agora, caso haja empresário que não cumpra suas obrigações, ele deve ser punido, e a Justiça Trabalhista é muito eficiente e rápida nessas questões.

Existem consumidores mais prejudicados com o fechamento aos sábados no atual horário?

Os que moram na zona rural, com certeza são os mais prejudicados, pois caso venham na parte da manhã perderão o dia e o descanso remunerado, e caso não seja descontado destes, os empregadores rurais terão mais este ônus. E não podemos desconsiderar esses consumidores, pois temos pelo menos 6.000 pessoas que moram na zona rural, e às vezes me deparo com comentários de empresários que ainda dizem que “esse consumidor não é meu cliente”. Ledo engano, uma vez que nossa economia é dinâmica. Pode não comprar na sua loja, mas compra no posto de combustível cujo proprietário compra em sua loja, ou compra de outra loja onde a esposa do proprietário compra em sua loja e daí por diante. Nossas empresas são unidas como elos de corrente.Já que citou esses consumidores, e sendo você também afeto ao setor agrícola, dê-nos seu parecer sobre a situação precária da cafeicultura.

Na sua opinião, por que os produtores de café não mudam de atividade diante de tantas crises?

Excelente pergunta. Sempre tive vontade de falar sobre este tema, e por também fazer parte deste segmento, sinto-me à vontade. Arrumar solução para o problema dos outros é muito fácil. Às vezes vejo certas manifestações nas redes sociais que me causam tremenda indignação, onde dizem “fazendeiros”, “barões”, “coronéis”. Meu DEUS, quanta desinformação por parte dessas pessoas! A cafeicultura está no sangue do nosso povo, faz parte da nossa história, não se abandona uma atividade do dia para a noite e o cafeicultor é um guerreiro. Vejo sua determinação e persistência na atividade que, se comparada a outras atividades onde a mortalidade ocorre com poucos anos de existência, confirma o que digo. Os problemas desses produtores são diversos, os maiores na minha percepção. Vejo o descaso dos nossos governantes na falta de uma política séria de incentivos e proteção, que somente o Brasil não tem. Andamos na contramão de muitos países no mundo, que enxergam a produção alimentar como soberania nacional, e no Brasil não, nosso alimento depende desses malucos que no sol quente ou na chuva vivem do milagre da multiplicação dos grãos e pouco se beneficiam ou, ainda, sofrem na atividade. Devemos nos lembrar também dos benefícios que o agronegócio traz para a balança comercial. Temos ainda um adversário diante do qual somos frágeis ou indefesos, que é a questão climática. Imaginem só a situação de um produtor que tem a infelicidade de passar por uma chuva de granizo ou geada. Para muitos é o fim, mas os que sobrevivem lutam com muita garra para se manterem vivos e perpetuar a atividade. Cabe aqui um último aspecto que devemos abordar: com o tempo, as propriedades de nossa região vêm diminuindo de tamanho, passadas de pais para filhos, para netos, e muitos já tiveram que encontrar subsistência noutra atividade e sem um tiro, revolta, reforma agrária muito bem feita sem desavenças, coisa de gente civilizada. Daí a dificuldade de abandonar a atividade, pequenas propriedades, descapitalização pela crise duradoura e muito mais. Fazer o quê? Vivemos num ambiente de cada vez maior competitividade e somente agregando valores ao café a atividade triunfará.

Na reunião, você afirmou que os vereadores não são bem-vindos na ACAITP. O que motivou essa manifestação?

Não disse no aspecto amplo, todos os vereadores. Disse, sim, os que parecem não querer o bem dos empresários e munícipes. Estes não são bem-vindos mesmo, até que eu lá esteja como representante, mas também não significa que sejam meus inimigos. Apenas divergimos nas ideias. Tenho praticado um exercício constante e interessante em minha vida, pelo qual ouço bastante para ver se eventualmente possa estar equivocado ou sendo exagerado. Daí tiro minhas conclusões. Neste ano percebi ter havido por parte do Legislativo – alguns vereadores – a imprudência e falta de maturidade quanto às conseqüências de precipitações. Há um caso específico, a Taxa de Inspeção da Vigilância Sanitária, e venho afirmando, desde a criação da lei, que deveria ter sido mais discutida para não gerar o desgaste que gerou. Ano passado colocamos em prática na ACAITP alguns projetos – profissionais da beleza e outros, quando nos reuníamos e demonstrávamos que valia a pena para as pessoas que estavam na informalidade se adequarem, e de repente fomos interpelados por muitos dos que se formalizaram, dizendo que os induzimos ao erro da formalidade, pois se não tivessem se formalizado não estariam expostos a essa taxa. Procuramos os vereadores para que, logo após a aprovação da referida lei, solicitassem ao Executivo uma revisão. Ficamos aguardando e nada ocorreu. Vi ali um enorme desrespeito para com nossa classe, que produz riqueza e colabora com o crescimento da nossa cidade. A ACAITP quer somar para que tenhamos uma cidade melhor, com pessoas mais capacitadas, a meu ver o maior atrativo para que novas empresas para aqui migrem. Então, nobres vereadores, não tenham a ACAI-TP como adversário e sim como aliada, e podem ter certeza de que podemos muito colaborar. Sigo, nos meus embates de ideias, um pensamento de Paulo Coelho, que diz: “Não podemos confundir tolerância com passividade”, e é justamente isto que eu quero que os próximos representantes da ACAITP tenham: capacidade de enxergar, e o quanto nossa Associação é grande para ser atropelada e ignorada. Uma pequena história da sabedoria árabe, anotada por Mansour Challita, recorda-os a melhor maneira de agir: -“Um pastor disse a seu pai: ensina-me a bondade. Respondeu o pai: seja bom como o cordeiro, mas que a sua mansidão não faça o lobo tornar-se valente demais.” Concluo, então, que devemos estar presentes na casa do povo, na Câmara Municipal, onde nossos representantes constatarão que seremos cordeiros mas com garras afiadas para quando necessário for, e conto com a presença de muitos para engrossar o couro da ACAITP.

(Reportagem publicada no Jornal Correio Trespontano – edição 04 de janeiro 2014)

COMPARTILHAR

Comentários