Este era até então um assunto que passava longe das minhas ideias para artigos. A vontade de escrever veio das passagens que tenho tido atualmente diante de tantas culturas, personalidades, histórias e cargos profissionais. Um assunto que engloba desde um belga que vende waffles em frente ao meu trabalho, à um ex-Promotor de Justiça paulista nos seus 75 anos que vive em Lisboa (que por sinal tivemos uma conversa extremamente interessante e versátil na altura), à uma Professora Doutora diretora mundial de Recursos Humanos de uma empresa X.

Traição. O que seria exatamente uma traição? Por que as pessoas traem? Ou qual significado você dá à palavra traição? Traição para você tem o mesmo significado que tem para o outro? Bem, “o desejo de adivinhar a alma segundo o exterior é tão antigo como a própria humanidade”. Será que ser infiel à alguém tem algo a ver com relação sexual, história de amor, sexo pago, conversas virtuais, revistas e vídeos pornográficos? Por qual motivo achamos que os homens traem mais? Seria simples e puramente porque “achamos” que está no sangue deles? Ou então porque nunca estão satisfeitos com uma única mulher? E as mulheres? Traem porque estão realmente apaixonadas pelo amante ou porque se sentem sozinhas? Tudo isso é “bool sheet.” E justamente em homenagem às pessoas que já amaram, amam ou amarão que redigo essas palavras. Na verdade, um ato comum e incomum é muito mal compreendido por todos.

O adultério existe desde que o casamento foi inventado, bem como, o tabu contra o mesmo. Aliás, a infidelidade tem uma tenacidade que só o casamento pode invejar a tal ponto que é o único mandamento que é repetido na Bíblia duas vezes: uma vez pelo próprio ato e o outro por pensar nele. Então, como reconciliamos o que é UNIVERSALMENTE proibido e ao mesmo tempo UNIVERSIVALMENTE praticado? Ao longo da história, homens tinham licença para trair sem muitas consequências, suportada por inúmeras teorias biológicas e evolucionistas que justificavam sua “necessidade de explorar”, o que significa que a duplicidade de critérios é tão antiga quanto o ato em si. Mas quem é que sabe o que realmente se passa embaixo dos lençóis ou dentro de quatro paredes? Como as pessoas são capazes de julgar algo que imaginam? Porque quando falamos de sexo, nos homens há uma pressão para se gabarem e exagerarem, mas as mulheres são pressionadas a esconder, minimizar e negar. O que não é surpreendente, pois ainda temos nove países (se não me engano) onde as mulheres podem ser mortas por adultério.

Antes a monogamia era estar com uma pessoa para o resto da sua vida. Hoje a monogamia é estar com uma pessoa de cada vez. Mudança drástica não? Tenho certeza que muitos de vocês devem estar a pensar: eu sou monógamo em todas as minhas relações (risos). Antes se casavam e tinham sexo na lua de mel. Hoje casamos e deixamos de ter sexo com outras pessoas. Também um pouco assustador. Ou não? O fato é que a monogamia não tem NADA A VER com amor. É aí que as pessoas fazem a confusão. Os homens precisavam da fidelidade das mulheres para ter certeza que elas estavam grávidas deles e quem herdaria “as vacas quando eles morressem” e não para saber se elas o amavam ou não.

A questão é que “não ser fiel” continua a expandir de uma maneira pior possível e sem ser compreendido, o que é pior. As pessoas praticam sem saber o que estão a fazer com elas próprias e com os outros. Algumas têm seus motivos específicos e reconhecidos por mim, mas algumas não. E atualmente, a facilidade que temos nas redes sociais cresce cada dia mais.

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O mais impressionante é que até hoje não temos exatamente um significado específico de traição. Cada ser humano responderia de uma maneira. Até mesmo a ciência não consegue oferecer UM ÚNICO SIGNIFICADO. Não conseguem porque é simplesmente algo que acontece desde os primórdios com uma cartela de variáveis por trás. Não existe um acordo consensual universal. Para vocês terem uma ideia, a estimativa (que aplica a todos nós) é de 26% a 75%. Mas para, além disso, somos contradições ambulantes. Por isso, 95% vão dizer que se o parceiro/parceira tivesse um caso extraconjugal seria simplesmente horrível, mas provavelmente quase a mesma quantidade já fez ou fará. Eu disse quase, não disse todos.

Na verdade, a infidelidade tem a ver com amor próprio e não com o amor do outro. Tem a ver com o que cobramos do outro. Ela é dolorosa e inaceitável porque ela ameaça a NOSSA SEGURANÇA EMOCIONAL. Um dos maiores problemas também é que temos um ideal romântico, no qual contamos com uma pessoa para preencher uma lista inacabável de exigências. O parceiro ou parceira tem que ser o melhor amigo, o melhor amante, o melhor pai, a melhor mãe, a melhor dona de casa, o confidente fiel, o companheiro emocional e par intelectual. Digamos então que você é escolhido para ser tudo isso! Então eu sou a escolhida, eu sou a única, eu sou indispensável, eu sou insubstituível, eu sou a tal (é como o cérebro começa a processar as informações), e a infidelidade chega ao seu ouvido para lhe dizer QUE VOCÊ NÃO É TUDO ISSO. Esta é a verdadeira traição. É aí que sentimos o tranco. A paixão tem um prazo de validade e todos nós sabemos disso. O amor não? Depende. Se falarmos em amor próprio algumas pessoas nem o tem. E amor incondicional? Já escrevi sobre isso e sabemos que não existe.

Mas se as pessoas que amam e são felizes traem então o que essa porcaria dessa traição significa? Casos extraconjugais são uma expressão de desejo e perda. Ele significa autonomia, liberdade sexual, algo novo. Na verdade, seria recapturar algo que foi perdido em nós mesmos. Pode ser também desejo de atenção, desejo de nos sentirmos especiais, desejo de nos sentirmos importantes… O fato de saber que não se pode ter isso faz isso o tornar cada vez maior, ou seja, acaba por ser uma máquina de desejo constante.

A única diferença que temos do passado e do atual é que antes as pessoas não brincavam de casar e construir famílias. Atualmente as pessoas brincam com isso como se fosse uma simples passagem da vida. Por isso eu digo que traição não tem nada a ver com amor que você sente pelo outro. Tem a ver com amor próprio, tem a ver com a própria identidade, com sua própria personalidade, com sua cultura, com seus ideais e crenças, e principalmente, com algo muito importante que muitas pessoas têm dificuldade que é o diálogo. O diálogo entre casais precisa existir para que essa “máquina de desejo” não ligue. E ambos precisam ter essa compreensão para que tudo corra bem.

Primeiro que, escolher uma pessoa para “sua vida” não é brincadeira. E exigir que ela cumpra com todas as suas necessidades também não é brincadeira. Desejar uma pessoa que “cubra seus buracos” é inaceitável e inadmissível. Aceitar que o próprio corpo amando ou não biologicamente sente atração por outro corpo também não é fácil, mas é fato. A questão é que sentir e fazer são duas coisas completamente distantes uma da outra. E essa distância nos oferece a opção de trair ou não. A partir do momento que você escolheu a pessoa para ser a pessoa da sua vida (o que é completamente diferente de escolher uma pessoa para assinar um papel de contrato de casamento ou namoro) você deve fidelidade a você mesmo.

O desejo é profundo. A traição é profunda, mas pode ser curada. O fato é que a maioria dos casais que vivenciaram traições continuam juntos, alguns irão apenas sobreviver e outros conseguirão transformar uma crise em uma nova oportunidade. E quando digo que traição não tem nada a ver com sexo, é porque não tem mesmo. Existem muitas maneiras de trair uma pessoa. Você pode trair usando desprezo, negligência, indiferença, violência…

O sexo é apenas uma delas e a vítima nem sempre é a vítima do casamento em si.
Aposto que muitos estão a pensar: ela deve ser a favor de ter um caso (risos). Vocês estão errados. Acho natural e jamais julgaria uma traição até mesmo pela minha posição de psicóloga. Aceitaria? Depende! Eu recomendaria? Não! Não recomendaria ter um caso extraconjugal, da mesma maneira que não recomendo você ter uma doença grave. Pois ele se torna um transtorno na sua vida. Uma hora ele deixa de “ser legal” e começa a te atacar de todos os lados. A pessoa não tem saída. Não minto que vejo os casos extraconjugais de várias perspectivas: crescimento e autodescoberta, como também, mágoa, decepção e perda.

O que eu faria? Aceitaria que isso é algo primitivo. Que pode vir acontecer ou não, mas só acontecerá se não houver liberdade no relacionamento para conversar e explicitar o que incomoda. Só acontecerá se você brincar de escolher uma pessoa para sua vida sem saber o que está fazendo. Só acontecerá se você achar que conhece seu parceiro como ninguém e nós não conhecemos nem a nós mesmos tão profundamente muito menos o outro. Só acontecerá se você não souber diferenciar o que vale a pena ou não. Só acontecerá se você não souber que existe a lei do retorno, e só acontecerá se o caso extraconjugal for a pessoa da sua vida. Como qualquer pessoa pode confirmar, compreender a traição profundamente está, basicamente, a leste do paraíso. Raras serão as pessoas que saberão lidar com ela depois de ter acontecido ou saber evitar para que não aconteça. É uma ironia do destino, pois a resposta está em você mesmo.

Uma frase de um livro me fez pensar que nossa alma, nossa autoestima e nossos valores devem ser beijados, e muitas vezes, e por alguém que o saiba fazer que seria nós mesmos. Parem de colocar a culpa nos outros e comece a olhar para seu próprio umbigo. Para de exigir do outro que ele cubra suas carências inacabáveis. O outro não tem nada haver com isso. Peça ajuda, mas não exija. Esteja perto, mas não sufoque. Ame, mas não morra.

Abrace, mas se proteja primeiro. Beije, mas acaricie sua alma. Assim o outro te amará da maneira como deve. Pense… com dois amores, ou seja, o seu e o do outro, o que seria necessário? Pessoal, se não for, simplesmente não será. Trabalhando por nós próprios conseguimos flexibilizar o que é necessário. O nosso “rosto” somos nós, nossas vidas e escolhas também.

Com carinho,
Mariana

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Mariana Azevedo Ximenes é psicóloga e atua na Psicologia Cognitiva e Psicologia do Esporte. Tem três livros publicados, diversos artigos e várias palestras ministradas. Fumec/USP/Unb

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