O Estado de Minas Gerais, reconheceu as marcas do trabalho que a psicóloga Rita de Cássia da Luz deixou e, oficializou seu nome na Unidade Prisional de Três Pontas. Em 16 de abril de 2019, foi publicada a Lei Estadual nº 23.295 assinada pelo governador de Minas Gerais Romeu Zema Neto (Novo). A lei de autoria do deputado estadual Carlos Pimenta (PDT) foi uma indicação do ex-vereador Geraldo Messias Cabral.

Depois disso, uma cerimônia realizada na noite desta terça-feira (25), no Plenário da Câmara Municipal Presidente Tancredo Neves oficializou o ato com o descerramento da placa que será afixada no hall de entrada da Unidade, localizada na Avenida Caio de Brito.

A equipe de cerimonial da Câmara, preparou junto com filha única da homenageada, Caroline Luz Zanetti, toda a solenidade, que contou com a presença de diversas autoridades. Carol ocupou lugar de destaque na Mesa Diretora da Câmara, ao lado do prefeito Marcelo Chaves Garcia, do presidente do Poder Legislativo Maycon Douglas Vitor Machado, que presidiu o cerimonial e da vereadora secretária Marlene Rosa Lima Oliveira. Na bancada, além dos vereadores, diretores dos Presídios de Varginha, Poços de Caldas, Andradas e São Lourenço fizeram questão de marcar presença na homenagem. O prestígio dela transcendeu as paredes das celas trespontanas e ganhou repercussão em todo o Estado de Minas Gerais. Seu trabalho voltado a ressocialização e dignidade de cada reeducando, transformou a vida de muitas pessoas, já que seus projetos foram implantados em várias outras unidades prisionais. Rita de Cássia da Luz faleceu em 07 de março de 2015, vítima de um infarto fulminante. Deixou marcas positivas e ficou como um legado para as gerações futuras. Deixou seu nome marcado na história não só de Três Pontas, mas de toda a região.

Caroline a filha da homenageada, o prefeito Marcelo Chaves, o presidente da Câmara Maycon Machado e a vereadora Marlene Lima que representou o deputado Carlos Pimenta

Filha de Rita diz que mãe assumiu papel solidário e acolhedor

Carol falou da dedicação e esforço da mãe em ressocializar os reeducandos do Presídio de Três Pontas

Com as atenções voltadas a ela, Carol Luz contou a trajetória de sua genitora e a história que começou em junho de 2011, quando Rita foi selecionada para ingressar na função de psicóloga no Presídio de Três Pontas, quando deixou de ser responsabilidade da Polícia Civil e foi para a SUAPI. De início, os reeducandos passaram por um período de longa transformação, vez que a SUAPI proporcionou a eles o uso de uniformes padronizados, colchões, materiais de limpeza e higiene pessoal, alimentação, bem como profissionais qualificados para que pudessem sair da cela em convívio com a sociedade. Muito embora a grande burocracia e a falta de recursos existissem, Rita da Luz não desanimou ao querer mudar aquela situação. Muitos reeducandos, que ela deixava se referir aos detentos de forma carinhosa, muitas vezes como “meus meninos”, não tinham um amparo e nem ao menos possuíam uma família que viesse visitá-los de forma periódica, o que aumentava a revolta e a dificuldade ressocializadora, tendo então, ela assumido esse papel solidário e acolhedor.

Com afinco e vontade, a mãe de Carol inovou no Presídio de Três Pontas. Criou diversos projetos para que amenizasse a ociosidade da cela, bem como introduziu a psicanálise no atendimento clínico, ainda que enfrentando muitas barreiras e obstáculos. Iniciou o projeto do Coral Renascer (Musicoterapia), que foi uma parceria com a Prefeitura. Reeducandos com bom comportamento poderiam realizar aulas de canto com o professor Oswaldo Duarte. Eles foram para diversas apresentações fora da cidade. Depois veio o Coral Renascer, aulas de teatro com cenas psicodramas, a Biblioteca Bárbara Luz, artesanato, Cinematerapia, futebol e campeonatos de damas e dominó. Todas as datas comemorativas eram trabalhadas, ainda que não houvesse recursos disponíveis.

Esta história fantástica fez com que a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais apoiou e apostou na causa, dando legitimidade ao projeto para a realização da inscrição no Prêmio Inovare de 2013. “Escutar e intervir – Medidas Alternativas ao Desenvolvimento Cognitivo e Remição de Pena” foi premiada como deferida pela banca julgadora do prêmio.

Depois de expressar seu sentimento de gratidão em memória a sua mãe, Caroline recebeu flores do Grupo de Psicólogos e Psicólogas de Três Pontas, entregues por Natália e Jorge e pelo ex-prefeito Luiz Roberto Laurindo Dias e sua esposa Iara Dias. Ouviu “Índia”, na voz de um grande amigo e parceiro de sua mãe, o músico Oswaldo Duarte, canção que Rita insistia que fosse inclusa no repertório do Coral. Em outro momento, o reeducando da unidade prisional de Varginha, Warley Lima de Andrade, acompanhado do professor e maestro trespontano Elias de Brito Pereira também tocou uma música ao violino.

Deputado é agraciado com cartão de prata

Carol entregou um cartão de prata ao deputado Carlos Pimenta, representado pela vereadora Marlene Lima

Caroline Zanetti da Luz fez a entrega de um cartão de prata, para o deputado estadual Carlos Pimenta, autor do projeto, representado pela vereadora Marlene Lima. Ele não pode comparecer por motivos de agenda, mas defendeu através da parlamentar, ser uma justa homenagem. Para o deputado pedetista, o Presídio para Rita, não era um trabalho, mas uma causa, um desejo de uma sociedade com oportunidades, com anseio por dias melhores e uma luta para que não só detentos, as famílias, mas sociedade pudesse crer que a valorização da pessoa humana, na reabilitação do ser, inspire outro a empenharem esforços para que o sonho não se sonhe só, mas se sonhe junto. “A Rita fez em vida do sonho a realidade”. Se dirigindo a Caroline, a vereadora, acrescentou que sua mãe deixou um legado, de exemplo, de honestidade, caráter, serenidade e muito amor. A placa entregue reconhece a grandiosidade do gesto do deputado estadual Carlos Pimenta, por sua sugestão junto ao Governo de Minas.

Rita de Cássia faleceu em março de 2015, vítima de infarto fulminante. Foto: Arquivo pessoal

Guerreira das causas sociais

Quando houve a ascenção de Cadeia para Presídio foi um momento turbulento, revela o diretor geral Washington Fonseca Borges (foto). Um prédio extremamente precário, com capacidade para apenas 42 vagas, que não tinha se quer sanitários, viaturas, apenas quatro computadores. Os projetos desenvolvidos na época pela psicóloga foram fundamentais e aliaram ao patamar diferenciado implantado na unidade prisional. Rita da Luz fazia as avaliações psicológicas e muitas das vezes evitava intervenções. “Continuamos o legado de sua mãe, disse Washington Fonseca a Carol. Os servidores sempre chamavam a sala que ela trabalhava de ‘sala da Rita’, agora, o prédio inteiro leva o seu nome, merecidamente. 

Ao longo destes anos, nunca houve motim ou rebelião, há uma relação mútua de respeito às condutas e com os reeducandos que fazem atividades externas durante o dia, nunca houve nenhuma intercorrência de portes grave ou gravíssima. Hoje o Presídio tem capacidade para 150 reeducandos. O reconhecimento da parceria firmada entre a Prefeitura e a Secretaria de Estado de Administração Prisional (Seap), que permite que presos do semiaberto trabalhem na Prefeitura, já rendeu dois prêmios entregues ao prefeito Marcelo Chaves Garcia em Belo Horizonte e Brasília.

O gestor atribuiu às homenagens que tem sido entregues a ele ao trabalho realizado com uma soma de esforços. Isto o enche de orgulho e o deixa muito feliz e satisfeito, por estar entre os poucos prefeitos do Brasil, a adotar esta parceria, que na visão dele tem que continuar.

Os detentos também prestam serviços de manutenção no Fórum Dr. Carvalho de Mendonça, na sede da Companhia da Polícia Militar e na Delegacia de Polícia Civil.

O diretor regional do Presídio da 18ª RISP e diretor Geral do Presídio de Poços de Caldas Adriano de Souza Silva, disse que deixou sua vida atribulada para estar com Carol e seus familiares, nesta homenagem especial. Rita que carregava luz em seu próprio nome, trabalhou com ele em 2012. Foi sua primeira unidade como diretor de segurança e tem um apreço pela cidade, onde residem vários familiares. Acompanhava a homenageada todos os dias e revela que todos os dias chegava com um projeto novo na mente para ser desenvolvido e conseguia transformá-los em realidade. “Agora seu nome está eternizado no Presídio, na cidade e nos nossos corações”, afirmou Adriano de Souza.

Rita dedicou sua vida ao próximo

Rita de Cássia da Luz, nasceu em Três Pontas em junho de 1963 e era filha de Marilena Funchal Luz e Francisco de Paula Vitor, que também já faleceram. Estudou psicologia na FUMEC em Belo Horizonte. Formada e residindo em Belo Horizonte (MG), tinha a empresa PSICAN, que atuava no setor de recrutamento e seleção para as empresas no setor de recursos humanos.

Quando retornou a residir em Três Pontas  trabalhou como psicóloga na APAE da cidade e também lecionou durante quatro anos aula de Psicologia na Faculdade de Três Pontas (Fateps) aos alunos do curso de Técnico em Enfermagem. Também realizava atendimentos em sua clínica particular.

Em 20 de junho de 2011, foi selecionada para fazer parte da equipe da SUAPI- Subsecretaria de Administração Prisional local, em que, basicamente, sua função seria o atendimento clínico dos detentos que por ali passassem.

Criou e desenvolveu diversos projetos, ganhou o reconhecimento e recebeu prêmios. Porém, Deus a quis em seus braços e em 07 de março de 2015, Rita faleceu em decorrência de infarto fulminante. Mas seu reconhecimento não parou com a morte. Mesmo no velório, reeducandos foram escoltados para que pudessem cantar as músicas do Coral e prestar sua última homenagem.

Após alguns dias da sua morte, a filha encontrou com o então vereador da época, Geraldo Messias que lhe deu a sugestão de enviar este projeto de lei à Asssembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que também contou com o apoio de Dr. Rodrigo Murad e com a iniciativa do deputado Carlos Pimenta. Ao tramitar pela ALMG, o presidente da Câmara Maycon Machado sempre lhe dava informações e pedia agilidade.

Com muita surpresa, no dia do aniversário de Caroline, foi publicada a lei que denominou o nome da mãe ao Presídio, o que considerou seu maior presente, após o falecimento de Rita.

O reeducando da unidade prisional de Varginha, Warley Lima de Andrade, acompanhado do professor e maestro trespontano Elias de Brito homenagearam a filha e a psicóloga
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