Era para ser uma semana movimentada para uma trespontana, que trocou Três Pontas pelo Rio de Janeiro a 14 anos. E não é porque ela estaria desfilando como destaque em uma escola carioca, até estaria, mas para ver mais uma vez a coroação de seu trabalho. Cristiane Aparecida Machado, de 43 anos, é mais uma anônima que deixou sua família aqui, foi alçar vôos mais altos e se tornou uma estrela nos bastidores da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense.

A história dela com o Carnaval, começou quando desfilava na Escola Consciência Negra e ajudava a confeccionar as fantasias. Criada na Rua Marquês de Abrantes, de família simples, mas reconhecida pela força, Cristiane é filha de Wander Lúcio e da cozinheira Neide Machado, que aposentou as panelas das cozinhas das escolas da Prefeitura e se dedica à família. Casada com o carioca André Luiz a 14 anos, desde que foi para o Rio, tem dois filhos, a Joyce de 24 anos que mora em Três Pontas e Davi de 10 anos que está com ela, no bairro de Ramos, bem pertinho do Centro.

A “carioca” da família Machado, é sobrinha do Luiz Machado Filho, que já faleceu e trabalhou durante muitos anos no Saae, e seu avô Luiz Machado, que morreu e empresta seu nome a pracinha que fica na rua onde sua mãe reside. Ela é irmã da Cristiele do Cartório, prima da Deise e do Danilo que trabalham no comércio, e do vereador e presidente da Câmara Maycon Machado. Tudo o que é hoje, deve a sua família, que lhe deu uma base fincada nos valores da honestidade e moralidade. Ela revela que abrir mão de ficar na sua terra natal, não foi tarefa fácil, pois ela não conhecia ninguém, mas o objetivo de vencer os obstáculos da vida, aliada a sua força de vontade a fez crescer.

Sua vida profissional no Rio começou em uma confecção, e depois, já foi para o Projac, no complexo de estúdios da Rede Globo, fazendo figurinos. Depois que engravidou de Davi, montou sua própria confecção e presta serviços para diversas empresas. Nela conheceu um figurinista da Globo, que lhe deu a oportunidade de fazer o figurino da Arena do Grêmio, quando teve a Copa do Mundo no Brasil em 2014. Foram quase mil figurinos levados lá para o Sul do país para a abertura da competição mundial. Foi com este trabalho, que ela conheceu um profissional excepcional chamado Clécio Regis, que tem um galpão de cenografia no Rio e presta serviços para Globo e Record e vários outros eventos. “Ele viu o meu trabalho e gostou muito do meu trabalho e me indicou para o presidente da Imperatriz, o senhor Luiz Pacheco Drummond. Eles estavam precisando de uma chefe de costura na época. Fiz uma entrevista e foi aprovada e como já gostava de Carnaval, não foi difícil produzir as fantasias”, detalhou Cristiane Machado.

E foi em 2014, sua primeira missão, homenagear o mestre do futebol do Brasil, o grande Zico, ídolo do Flamengo e da Seleção Brasileira. Cristiane assumiu a responsabilidade e vem se superando ano após ano. Já se passaram oito anos e a trespontana tem uma equipe de profissionais com várias funções que trabalha com ela. A costureira trabalha seis meses exclusivamente para a escola e o restante na sua confecção.

Quando ela e dona Neide assistiam na televisão os desfiles do Rio, a mãe dizia que um dia assistiria o desfile, ao vivo lá da passarela e nem havia este sonho de um dia estar em um cargo de tamanha responsabilidade como este, em uma Escola como a Imperatriz. Mas o sonho foi realizado no primeiro ano dela na Sapucaí. Ela e a família toda. “Ver a minha o resultado do meu trabalho na Avenida e ser reconhecido é muito gratificante para mim”, comemorou Cristiane.

Este ano por conta da pandemia da Covid-19, o Sambódromo ficou vazio durante os dias da Festa de Momo e pela primeira vez, teve que interromper a sua missão de encantar o mundo que se curva diante da magia e da alegria que traz o Carnaval. Cristiane avalia que foi sensato a decisão de não fazer a festa, para não expor a vida das pessoas, mas s ela disse que já está ansiosa para que em 2022, tudo esteja resolvido e o Brasil possa comemorar o Carnaval em dobro. Sem a festa, Cristiane está na lista infinita daqueles que tiveram que se reinventar foi produzindo máscaras que ela continuou encantando para sobreviver. Ela utiliza um material diferente dos tradicionais e já vai esterilizada.

O acessório que se tornou item obrigatório em favor à saúde, é vendido pela filha dela em Três Pontas, mas já atravessou fronteiras, com destino a São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e também para fora do Brasil. As máscaras chamaram tanta atenção que Cristiane concedeu duas entrevistas para os jornais O Globo e Extra, para falar do assunto. As entrevistas aconteceram depois que ela participou de uma palestra sobre empreendedorismo, e foi indicada à uma produtora dos jornais e teve a oportunidade de falar do seu trabalho.

A experiência de trabalhar em uma escola é gratificante e prazerosa, conhece muitos artistas e faz questão de registrar o encontro com eles, mas os desafios são diários todo o tempo. Mas, ela afirma que “se gente não tirar as pedras do caminho, a gente não forma um lindo castelo lá na frente. Eu gosto desses desafios, que me impulsiona a sempre ser melhor e fazer o nosso melhor. Gosto muito do que eu faço, de trabalhar na Imperatriz e pelo reconhecimento que tenho da direção”, comentou. O presidente da Escola Luiz Pacheco Drummond faleceu ano passado e ficou a gratidão pela oportunidade que ele deu à ela, de colaborar com o espetáculo do Carnaval.

Pelo profissionalismo e pela pessoa que é, Cristiane Machado tem seu trabalho reconhecido, pelos funcionários do barracão da escola, a direção, até a familia do presidente. “Isto é fruto da sabedoria, humildade e simplicidade e não querer ser mais que ninguém, mesmo que tenha gente que queira nos derrubar. Ter Deus na nossa vida, ele nos protege e tudo flui”, revelou a chefe de costura.

É claro que tínhamos que perguntar a opinião dela sobre o Carnaval de Três Pontas. Ela diz ser suspeita para falar e declara que é um dos melhores do Sul de Minas. Porém, avalia que é preciso mais incentivo em alguns setores e não pode deixar acabar o Carnaval, resgatando a sua origem, como por exemplo, dos blocos de rua, da época quando tinha o boi. Ela conta que chegou a mandar muitas fantasias para as escolas daqui da cidade, mas ninguém deu retorno, nem mesmo para a direção da escola e ela não conseguiu enviar mais por isso. Mas Cristiane se coloca a disposição para ajudar neste novo formato que está sendo desenvolvido. ” Acho que a iniciativa adotada por eles foi muito boa e os empresários devem investir muito neste projeto. As pessoas questionam, porque não investir na saúde ao invés do Carnaval, mas precisam entender que cada coisa é uma coisa e o recurso é da área da cultura. Quem tem que administrar isto são os políticos, porque a festa traz recursos à cidade”, opina.

Antes de encerrar as perguntas, Cristiane expressou sua vontade de vir mais em Três Pontas. Ela vem duas vezes por ano por conta da sua rotina no Rio, família, trabalho e muito trabalho. Mas ela ama sua cidade natal e no que puder ajudar e estiver dentro do seu alcance conta Cristiane, que já disse isto ao primo Maycon Machado. Mas não depende apenas dela. Pois a hospitalidade da cidade, o carisma de quem nasce em solo trespontano, precisa ser valorizada e reconhecida.

Se tem vontade de voltar para junto da família que deixou aqui? Ela diz estar estabilizada, mas se um dia tiver que voltar não haveria problemas, mas por enquanto, ela vai ficar no Rio de Janeiro, amando sua terra e a disposição para estender a mão no que for preciso.

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