Loui Jordan – Equipe Positiva

A frase de Clarice Lispector é definitivamente perfeita para Sérgio Ricardo de Melo. Sérgio é compositor nas horas vagas, ou melhor, nas horas certas e sem receita, afinal nunca se sabe o momento adequado para se compor. Ele também é funcionário da Escola Estadual Monsenhor João Batista da Silveira. Além de ter ficado com o 1° lugar da etapa local do VII Festival Canto Aberto, com a música “Flores Virtuais”, Sérgio e seus companheiros ficaram com o 3° lugar na edição anterior. Aliás o colégio onde ele trabalha ocupou o 1º lugar com o conto da aluna Stephanny Silva Oliveira, com o título “Raça e conquista”.

O autor da canção é primo de Sérgio – André Luís dos Santos Barbosa. Já a interpretação ficou por conta da professora de música Vivian Peloso. A música “Flores Virtuais” é rica na boa velha poesia e sem dúvida, é uma crítica bem-feita ao mundo virtual que cada vez mais está empregado nas relações afetivas, pessoais e sociais.

Os bastidores da música

É nos bastidores onde as coisas acontecem: o processo de “fabricação” da música, os ajustes de última hora e claro, as relações de amizade e companheirismo. Os bastidores não são uteis apenas na questão técnica e mecânica da música, mas sim para encontrar o “preço” real pelo motivo de se fazer música, se é que tem preço que pague isso.

Para adentrar no processo de fazer a canção, Sérgio destaca de cara, a importância de seu primo e a ideia a ser transmitida através de todo o seu arranjo. “A letra não é minha, é do meu primo André dos Santos. Ela foi uma encomenda de Júlio Almeida, que também e festivaleiro. Ele veio aqui, também e já participou pelo segundo ano do Festival Canto Aberto da etapa nacional. Ele agrada muito o público de Três Pontas. Cantou com Zé Alexandre no festival deste ano. Eu já o conhecia. Ele conheceu o meu primo que é o autor da letra e sempre que possível via nos festivais. Eu queria uma letra que falasse sobre os relacionamentos do mundo virtual, o que estamos vendo e vivenciando muito nos dias de hoje. Acho uma loucura as pessoas se conhecerem pela internet e ficam com aquele relacionamento superficial e a letra foi feita baseada nisso. E de certa forma fazemos um paralelo com o mundo real também”, descreve Sérgio.

De acordo com o compositor, seu faro musical tinha destino certo. “Quando essa música ficou pronta eu já percebi que ela encaixava na voz da Vivian. Eu já a conhecia, mas nunca tinha feito nenhum trabalho em parceria com ela para festivais. Entendi que o estilo da música era muito próximo ao dela, que requeria uma interpretação forte, como é a voz dela e saber com quem encaixa a música, é fundamental na tarefa de conclusão”, explicou.

Sérgio não titubeia nem um pouco em relação à interpretação de Vivian. Para o músico, a interprete foi perfeita sem a necessidade de nenhum reparo.  Uma coisa costuma valorizar em quem canta suas músicas é a pronuncia das palavras. Neste caso, foi perfeita. A letra tem alguns problemas de compreensão, não é tão popular, admite Sérgio, por isto, é recomendável que se ouça e a leia juntos.

O Festival Canto Aberto segundo o vencedor

Em relação a sua opinião sobre o festival dessa edição, Sérgio considera de altíssimo nível a disputa traçada no evento. O nível melhorou consideravelmente. Por este motivo, confessa que ficou bem inseguro se conseguiria ir para final e ficar entre as cinco. “Queria ser campeão, mas entenderia se o resultado fosse outro, pois as outras músicas também em um nível muito forte”, opinou.

Sérgio de Melo gostaria de encontrar divulgação do Festival aos alunos de todas as escolas. “Eu acho até que deveria haver uma possibilidade de as escolas participarem mais diretamente no sentido de acompanhar o festival. Eu estava pensando no calendário escolar, e de repente durante estes dias aproveitar a data e emendar com o feriado da Cidade e se compensaria em outra data, como já acontece em outras ocasiões”.

A matéria-prima da música

“No caso especificamente, quando Sérgio faz uma música ele precisa ter a letra, que é a matéria-prima primeira”. A frase de Sérgio é autoexplicativa. A letra é o passo importante na criação de uma obra chamada música. Sobre a possibilidade de executar no palco a música que ele ajudou criar, o compositor é sincero o suficiente para dizer que não abre mão de estar presente. Ele acha que especificamente no festival, como é uma coisa autoral a pessoa precisa acreditar na música. “Eu não tenho que pagar um músico para tocar. Eu faço por amizade, porque também acho ela acaba sendo um veículo de você encontrar pessoas e se tornar amigo pessoal. Eu não estou desmerecendo e nem desconsiderando. Claro que gostaria de ser remunerado, mas se eu fosse músico profissional, eu também na maioria dos trabalhos eu não cobraria”, comentou.

Toda a compreensão musical se explica pela habilidade em produzir um “esboço” para depois agrupar e concluir. “Eu acabei me tornando especialista em colocar músicas em letras” diz o compositor. Ainda sobre a questão de montagem da música, Sérgio complementa: “eu faço praticamente a concepção total depois da melodia, da harmonia, até alguma coisa do arranjo. Eu me especializei pela parceria com meu primo, por isto, estamos fazendo letras a uns 15 anos.  Na produção musical, o que não falta é intuição e nada é programado, segundo o próprio compositor. Cada detalhe é elaborado na sua devida etapa. Tudo vai se juntando na cabeça de Sérgio, que compõe, no ônibus, no banheiro, entre outros lugares. Depois pega tudo, se junta e vai gravando cada pedacinho. É preciso conferir tudo, inclusive a melodia, caso haja alguma mudança.  

Uma das questões mais ressaltadas por Sérgio, foi a dedicação e contribuição de seus parceiros musicais. O primeiro ensaio com todos os envolvidos participando, acreditem, foi justamente na passagem de som, ou seja, momentos antes da apresentação. Sérgio fez questão de agradecer nominalmente a cada um dos músicos: o filho baixista, Diego de 22 anos da Banda Avapor; o guitarrista professor de música e ex banda Ummagumma Eduardo Botrel e o percursionista Thilê (Alesandro).

Ele não esqueceu, mas deixou por último para agradecer a mais paciente esposa, Sandra Maria Vieira de Melo Barbosa. “Não é qualquer uma que aguenta a bagunça que eu faço na sala de casa para os ensaios. Se chegarmos lá agora, vamos encontrar microfone caixa e mesa de som, tudo esparramados. A ela agradeço pela paciência”. Ele inclusive elogia a companheira que o auxilia para evitar possíveis plágios. Sandra Barbosa é uma crítica ferrenha.

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