SEGUNDA-FEIRA FOI COMEMORADO O DIA MUNDIAL DE COMBATE AO CÂNCER

Desde o diagnóstico até a cura, lidar com o câncer não é uma tarefa fácil. O câncer é um grave problema de saúde pública no mundo e matou globalmente, em 2018, cerca de 10 milhões de pessoas, segundo dados da Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer. Buscar uma cura para essa doença é um grande desafio para a medicina, mas, mesmo sem uma solução ainda definitiva, os tratamentos vêm evoluindo ano após ano, assim como a taxa de mortalidade vem caindo.

Nesta segunda-feira, dia 8 de abril, foi comemorado o Dia Mundial de Combate à doença. A data serve para instruir e educar a população mundial, sobre como se prevenir da doença que faz vítimas todo ano em todo o mundo: o câncer.

Para as mulheres que enfrentam o câncer, uma das maiores dificuldades é perder o cabelo. A vaidade fala alto e ver as mechas caindo ou ter que cortá-las causa enorme sofrimento. Esta é uma pequena parte de uma história da funcionária pública Tarsila Paiva Ferreira Mendonça. Hoje com 35 anos ela enfrentou ao lado da família e das amigas que haviam contraído a doença, um câncer de mama. Ela é casada com o servidor municipal Alexandre Vitor Mendonça, com quem tem dois filhos, o Luan de 11 anos e o João Lucas de apenas 2. Descobriu o câncer com 28 anos. Na época, o filho Luan tinha apenas 4 aninhos e não aceitava a doença da mãe. Não permitia a ida dela na escola por vergonha, ou talvez por medo do que os coleguinhas poderiam dizer, ao ver a mãe dele sem os cabelos e com lenço na cabeça. Foi uma fase difícil, em que Tarsila sempre coruja e muito presente, teve que se abdicar de acompanhar de pertinho seu único filho.

Tarsila enfrentou a resistência do filho quando estava sem os cabelos e tinha que usar o lenço. Fotos: Arquivo pessoal

Foi ela mesma que com um toque, sentiu um nódulo no seio. Ainda esperou um mês até ir a médica. Lá, foi tranquilizada. Era muito nova e não precisava ainda fazer exames de rotina, como a mamografia. Inicialmente aquilo não deveria ser nada, mas foi orientada a retirá-lo.  Realizou vários exames, mas como não tinha condições financeiras de fazer a cirurgia particular, procurou o sistema de saúde público.

Em meados de novembro de 2011, foi até o Centro Integrado de Assistência à Mulher e a Adolescente (CIAMA), se consultou e soube que deveria entrar na fila que estava enorme e que a espera seria grande. Eram poucas cirurgias realizadas no mês. Ao sair do consultório, foi informada de que faria o procedimento no início do próximo mês, em dezembro. Tarsila estranhou aquilo, mas ficou até satisfeita. A cirurgia foi realizada e ela ficou aguardando o resultado da biópsia, para saber o que era aquele nódulo. Já em janeiro de 2012, foi chamada no CIAMA, agora para saber o resultado e foi a pior notícia que recebeu na vida. Tarsila soube que era cancerígeno, um tumor enorme, de cinco centímetros. O médico que a atendeu foi bastante franco: abriu o jogo dizendo todas as consequências que ela sofreria. Tarsila ficou desesperada naquele momento e chorou muito. Demoro uma semana para ter coragem para contar a seus pais que estava com câncer. Mas não se esmoreceu. Ela buscou em amigas que já havia passado por isto, o amparo. “Eu achei que só quem tinha passado por isto poderia me contar como era”. Reforçou sua amizade com Flaviane da Silva e com a Cristiane da “Cris Estética”. Flaviane infelizmente faleceu, mas lhe apoiou muito e passou a ela, como foi a experiência de lutar pela vida.

Ela tinha que fazer uma nova cirurgia para retirar uma parte do seio, uma parte pequena, chamada na medicina de quadrante e fazer um esvaziamento linfático, para a retirada de sentinelas, para não ter o risco da doença se espalhar.

Final de janeiro, Tarsila fez a segunda cirurgia e como de praxe ficou aguardando o resultado e ele foi positivo, não havia ficado raiz, ou seja, não havia mais foco do câncer em seu corpo, mas começava a luta pelo tratamento oncológico. Foi encaminhada para o Hospital Bom Pastor de Varginha para sua primeira consulta e avaliação. Foi indicado à ela, alimentação equilibrada, muito repouso e realizar 8 sessões de quimioterapia, sendo 4 vermelhas e 4 brancas. Realizou a primeira e após cerca de 15 dias, os cabelos de Tarsila começaram a cair. Ao invés de cortá-lo como muita gente faz, preferiu deixá-lo cair. A funcionária pública conta que a sessão vermelha causa muito enjôo, não tinha vômito, mas o mal estar que sentia era terrível. Alguns pacientes precisam até ser internados. A cada 21 dias, era preciso fazer um exame de sangue para avaliar se ela podia ou não fazer a quimioterapia. Na sessão branca, que é menos agressiva, as conseqüências são dores no corpo e pele ressecada.

Aniversário de Tarsila enquanto lutava contra o câncer. Ela esteve rodeada de familiares e amigos

Em março, no seu aniversário, sempre recebe amigos em sua casa. Não faz festa, mas sempre tem os mais próximos que vão desejar feliz aniversário para ela. Neste ano, todos os amigos fizeram questão de ir cumprimentá-la. Tarsila parecia artista famosa, todo mundo queria fazer uma foto com ela.

Depois veio a radioterapia. Tarsila fez 30 sessões também na oncologia do Hospital Bom Pastor. Ela queima as células cancerígenas e o procedimento é difícil. Tarsila sentiu como se o corpo estivesse queimando.

Etapa vencida, foi a vez de tomar um medicamento que não era liberado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Precisava de 18 doses e cada uma custava R$10 mil. Achou que iria morrer, já que aquele valor estava longe da sua condição financeira. Entrou na justiça e conseguiu. Fez o uso do medicamento, enquanto era acompanhada por oncologista e mastologista.

Todo o tratamento durou por volta de um ano. Em março de 2013, Tarsila voltou a trabalhar, ainda mais disposta do que era, manteve firme seu otimismo que venceria o câncer. Não sofreu durante o tratamento problemas psicológicos, como acontece com muita gente. Corria risco se engravidasse, mas acreditou. Teve o segundo filho, que hoje está com dois anos.

Em fevereiro deste ano, sete anos depois, ela recebeu alta médica da oncologia. O acompanhamento agora é apenas com mastologista, mas Tarsila está curada e com uma disposição de viver ao lado de seu marido (que não a abandonou), filhos, familiares e amigos ainda maior, por saber que tantas outras pessoas não tem um final assim como ela.

Ela integra um grupo chamado de “Amigas Guerreiras”, que está ativo e leva carinho, atenção e informação às mulheres que precisam enfrentar a doença. Seja através de rodas de conversas, eventos, que realizaram ou simplesmente com uma presença e um ombro amigo.

Tarsila com os filhos Luan e João Lucas

Três Pontas 34 pessoas em tratamento

As causas para o aparecimento da doença podem ser variadas, incluindo desde motivos externos, como o ambiente em que a pessoa vive, até os hábitos e costumes presentes em nosso dia a dia. Pode decorrer, ainda, de fatores internos que, na maioria das vezes, estão ligados a fatores genéticos. A boa notícia é que os tratamentos vêm evoluindo e a taxa de mortalidade vem apresentando redução.

As principais microrregiões encaminhadoras de pacientes para o Hospital Bom Pastor são Varginha, Lavras, Três Corações, Três Pontas e Pouso Alegre, com um total de 519.721 habitantes.

O Hospital Bom Pastor de Varginha, é um hospital geral e oncológico reconhecido como referência macro regional no atendimento de alta complexidade, com ênfase em Oncologia, nas modalidades assistenciais, ambulatorial e hospitalar. Atende a 53 cidades, entre elas Três Pontas. Só na oncologia é realizado uma média de 280 atendimentos por dia, por uma equipe médica e multidisciplinar. De Três Pontas, são 34 pacientes, atendidos pela Secretaria Municipal de Saúde que pegam estrada todos os dias em busca do tratamento. Esta é a maior dificuldade enfrentada pelo paciente.

Varginha, é o centro de uma excelência que oferece às pessoas com câncer um acervo de serviços em prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer, além de terapias de suporte.

A maioria dos pacientes que dão entrada no setor oncológico, tem diagnóstico realizado através de biópsia, mas sem nenhum tratamento realizado, seja cirurgia, ou quimioterapia ou radioterapia. A outra parte dos pacientes chega com o procedimento cirúrgico já realizado, necessitando de avaliação para tratamentos complementares.

Na análise específica pela incidência de câncer para o sexo masculino, de acordo com o Oncologista Clínico do Hospital, Dr. Bruno Aquino de Souza, a maior incidência do câncer é de próstata, compatível com as estatísticas nacionais.

O tratamento de um câncer engloba a tríade (quimioterapia, radioterapia e cirurgia). A quimioterapia pode variar de 15 minutos a seis horas a sua aplicação. A radioterapia é em média 10 minutos de radiação por equipamento próprio e a cirurgia tem um tempo médio de 4 a 6 horas. O acompanhamento é feito por 5 anos após todos os tratamentos.

O câncer de pele não melanoma é o mais incidente a nível nacional, entretanto casos não necessários de tratamento com equipe de cirurgia plástica não são encaminhados à oncologia, portanto não fazendo parte da estatística.

Baseado nas tabelas de incidência do hospital, o médico oncologista clínico Dr. Rodrigo dos Santos Maganha, fez alguns comparativos com aquilo que acontece em nível de Brasil e no mundo. Primeiro, chama a atenção em relação ao câncer de colo uterino, onde em algumas regiões do Brasil prevalece sua maior incidência, inclusive mais que câncer de mama, como nas regiões Norte e Nordeste e também em países pobres e em desenvolvimento. Nossa incidência apesar de ainda ser alta, mas é bem menor que nas regiões citadas, havendo uma tendência com o que ocorre em países desenvolvidos, ou seja, um decréscimo gradual dessa patologia, talvez influenciada pela conscientização da população geral, assim como eficiência da rede pública em campanhas de prevenção e a própria prevenção efetiva através de disponibilidade de exame preventivo na população de risco.

Outro ponto importante nas estatísticas, porém de caráter negativo para a instituição e região, é a respeito de câncer de pulmão, onde há uma incidência cada vez maior, chegando a alguns países como maior causa morte tanto em homens quanto mulheres, e uma incidência infelizmente cada vez maior, e se aproximando de tumores altamente frequentes como o câncer de mama na mulher e o de próstata nos homens.

No Centro de Oncologia, o tumor de pulmão está atrás do câncer de mama e próstata, mas também atrás de tumores subidamente menos incidentes que ele, como os do trato gastrointestinal e tumores hematológicos. Isso nos faz pensar em falta de diagnóstico, com pacientes evoluindo a óbito sem ser se quer diagnosticados. Onde está o problema? “Não podemos saber por esses levantamentos, mas isso nos faz pensar que teremos que ficar mais atentos e tentar descobrir qual o motivo para conseguirmos resolver, pois infelizmente, não podemos falar positivamente e alegar que nossa instituição e região tem menos casos, devido a uma incidência realmente menor”, pontuou Dr. Rodrigo.

No caso do câncer de mama, há um expressivo aumento no período analisado, de 2013 a 2017, observando um aumento de cerca de 56% dos casos, ou seja de 172 para 270. A razão deste aumento deve ser procurada, pois segundo o mastologista Dr. Sinézio Alves Silva Filho, trata-se de uma variação muito expressiva, que não condiz com o aumento mundial da incidência do câncer de mama neste período e vários fatores podem ser sugeridos, como uma variação na base populacional pesquisada, verificando se o número de cidades atendidas foi o mesmo; considerar as campanhas de diagnóstico precoce/prevenção de câncer de mama que foram instituídas pelas autoridades municipais, estaduais e federais e, para isto, verificar o número de mamografias e ultrassonografias de mama que foram realizadas no período analisado. Deve-se considerar, também, o uso de medicamentos, notadamente os de base hormonal na população em geral ou em certas faixas etárias de maior risco como na menopausa. Há ainda, um fator importante que é o fator alimentar e, nesta área, verificar o uso de anabolizantes para engorda de gado bovino ou suíno ou outros ainda.

Deixando o avanço da tecnologia e da medicina de lado, é possível evitar o câncer com hábitos saudáveis. A orientação em todos os casos é que o paciente realize atividades físicas conforme orientação, alimentação saudável com frutas e verduras diversificadas, evitar exposição solar em horários de picos e, realizar exames de rotina conforme a indicação médica. Deve se evitar os alimentos industrializados e o sedentarismo. As indicações para realizar exames preventivos devem ser indicados pelo médico, porém, nada impede que qualquer pessoa estar atento a eventuais mudanças no seu estado de saúde e procurar ajuda numa UBS ou com um profissional especializado.

COMPARTILHAR