A música provoca felicidade e muito provavelmente ela é ótima para a saúde. A Santa Casa de Misericórdia do Hospital São Francisco de Assis de Três Pontas, alinhou canções, amor, medicina e arte e realizaram na noite desta quinta-feira (06), um Sarau de Natal, com atrações artísticas, exposição e venda de trabalhos manuais, como por exemplo, artigos de decoração e presentes como caixinhas, guirlandas, tapetes, quadros, porta talher, desenvolvidos pelos pacientes da Ala Psicossocial “Dr. Paulo Nogueira Resende”, inaugurada em 2012.

O sol ainda iluminava o início da noite na Praça da Árvore da Santa Casa. Moradores da cidade, servidores, convidados, moradores e até pacientes deixaram seus leitos e acomodoram para curtir a noite única e especial. Entre as atrações estiveram as Cigarras Cor de Rosa, Caio Arcanjo, o Coral Sal da Terra e os Trespontalhaços. O secretário municipal de Cultura, Lazer e Turismo abriu a festividade com o Hino do Centenário, que se tornou o Hino de Três Pontas.

O provedor Michel Renan Simão Castro falou com a emoção que estava sentindo. Prestes a completar dois anos a frente da instituição, o empresário vê uma situação melhor, porém, aponta o sofrimento causada pela falta de repasses do Governo de Minas Gerais, que impede melhorias na estrutura e que a Santa Casa honre com seus compromissos, como sempre planejou. Michel agradeceu os deputados parceiros pela emendas feitas e o prefeito Marcelo Chaves que tem colaborado naquilo que pode. A sobrevivência da instituição, segundo Michel Renan está nas mãos de todos os trespontanos e moradores das cidades que tem o Hospital como referência.

Livro Todo mundo, toda gente foi escrito pelos pacientes do Hospital. Foto? Mariana Tiso

A grande atração foi o lançamento da obra literária “Todo mundo, toda gente”. Ele nasceu do projeto “De poeta e louco todo mundo tem um pouco”, elaborado pela assistente social Tatiane de Brito e pela psicóloga Brunna Mendes. O trabalho foi desenvolvido com o intuito de incentivar a produção poética possível através das experiências e afetos. O livro é composto de poesias e ilustrações realizadas pelos pacientes portadores de doenças psíquicas e dependentes químicos, onde. Nele eles expressam suas emoções, percepções, ideias e histórias de vida, marcadas pela existência de cada um.

O exemplar de poesias tem 23 páginas, produzidos por 12 pacientes que foram atendidos no Hospital São Francisco de Assis e impressos pela Belo Gráfica. A publicação foi autorizada pelos familiares, mas não os pacientes não foram identificados. O livro está sendo comercializado a R$10 cada um, no próprio Hospital e em breve no comércio.
A administradora do Hospital e neuropsicóloga Dra. Flávia Eugênia Souza Rocha (foto) orientou os trabalhos. Quando chegou em Três Pontas, percebeu que era preciso incluir uma atividade no setor psicossocial. No século XIX, nos hospitais psiquiátricos franceses eram desenvolvidas oficinas de arte terapia. No Brasil este tipo de trabalhos só eram realizados após a desospitalização, nos CAPS no NAPS onde já existem oficinas e outras atividades.

De acordo com Dra Flávia, orientar o paciente psiquiátrico no momento do surto e do adoecimento mental é o que foi realizado na Santa Casa. Os profissionais colocaram eles no período da internação para produzir algo e segundo ela, isto é pioneiro em hospitais gerais e deve ser o primeiro no Brasil. Ela tem experiência. Seu mestrado e doutorado trouxe justamente este tema. Retomar esta prática do século passado o que foi um grande desafio para a equipe inteira.

A equipe médica, formada por enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e diversos profissionais foram envolvidos neste trabalho de arte terapia. Os textos dos pacientes que escreveram foram escolhidos e analisados quais tinham condições de participar, não apenas na obra, mas em vários projetos que mudaram a rotina não apenas da instituição, mas a vida de cada um e trouxe novas perspectivas aos seus familiares.

Na visão da neuropsicóloga, o sofrimento mental, traz um rótulo de incapacidade e de loucura. O projeto provou que no momento agudo, em que a doença está eclodindo, os pacientes podem sim produzir. Isto é um fenômeno comum. Assim como existem os artistas que estão nas ruas, tocando e pintando. “Quando se coloca uma pessoa que sofre mentalmente para produzir, qualquer tipo de coisa em que ela tem habilidade, ela se sente no mesmo patamar de uma pessoa que é chamada de normal”, relata Dra. Flávia.
No momento em que os assistidos estão produzindo, a equipe percebeu que se conseguia tranquilizar estes pacientes e trazê-los um pouco mais para a realidade, provocando preocupação com o corpo, integração com a família. Tudo que eles faziam ficavam com seus familiares e isto melhora a situação dos pacientes que sofrem de transtorno alimentar e não se alimentavam. Alguns produzem biscoito e acabavam experimentando, se sentindo assim produtivos. “Isto resgata a auto estima, aproxima eles da sociedade, uma vez que eles se sentem e são na verdade um pouco marginalizados”, explicou.

Outro fator importante com a própria equipe da Santa Casa. O projeto aproximou funcionários de outros setores a Ala Psicossocial. Os trabalhos artesanais feitos pelos pacientes foram expostos, colocados a venda e leiloados, durante o evento. Toda a renda será revertida ao Hospital na manutenção do próprio projeto.

Dra. Flávia que tornar legítima e cientifica esta produção que existe dentro do Hospital de Três Pontas. Ao analisar os textos produzidos, a médica e administradora, disse que ficou surpresa com a coerências das poesias. O que eles não dão conta de verbalizar, escrevem, pintam e moldam com as mãos. Este trabalho de pensar e colocar no papel, demonstra qual o ponto os fazem sofrer, quais são as causas que os incomodam.

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