No município, projeto deve ser construído coletivamente pelo MPMG, instituições parceiras e voluntários, explica a promotora de Justiça, Ana Gabriela  

Arlene Brito

A semana começou de uma maneira diferente para lideranças do segmento Segurança Pública em Três Pontas. Chefias da Polícia Militar, Polícia Civil e da Unidade Prisional “Rita de Cássia da Luz” participaram do primeiro Círculo de Construção de Paz voltado ao setor, conectadas por uma plataforma virtual devido à necessidade de distanciamento social imposta pela pandemia de Covid-19.

Durante duas horas, os líderes experienciaram uma das atividades propostas pela promotora de Justiça, Dra. Ana Gabriela Brito Melo Rocha, que fará parte de projeto a ser construído coletivamente pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais, as instituições parceiras e voluntários.

De acordo com a promotora, nos Círculos – que acontecem em um espaço seguro – não existe hierarquia, portanto, os participantes têm igual importância. Eles são convidados a compartilhar suas histórias e, assim, permitem-se ser verdadeiramente conhecidos e também conhecer os demais participantes.

Ainda segundo a promotora, a proposta do Círculo é uma criação conjunta. Ela considera a valorização das diferenças o grande diferencial desse trabalho. “Nos Círculos, oferecemos aquilo que temos de melhor e mais genuíno, que é a nossa humanidade. E isso é altamente transformador”, registra.

Dra. Ana Gabriela destaca que agentes de Segurança Pública estão expostos, no exercício das funções, a um maior número de situações e eventos com potencial de causar traumas. Esses servidores podem não ter consciência da sobrecarga emocional, mental e física que experimentam mas, de alguma forma, sentem e respondem a ela. “É comum que pessoas feridas ingressem em ciclos de violências. Podem se tornar vítimas de si mesmas e abraçar condutas autodestrutivas – como abuso de álcool ou cigarro, depressão, excesso ou carência de alimentação, ansiedade e até mesmo suicídio. Ou, ainda, podem direcionar a energia do trauma para fora, impactando terceiros e, dentre outras condutas, assumindo comportamentos de risco, praticando violência doméstica ou tornando-se agressivas”.

Após a observação, a promotora continua: “é preciso que criemos espaços para que possamos nos escutar, nos sentir apoiados e conectados com nós mesmos e com outras pessoas. Os ciclos de violências podem ser quebrados com práticas que nos ajudem a desenvolver resiliência e, portanto, a habilidade de sermos flexíveis e de nos adaptar às mudanças”.

No primeiro Círculo de Construção de Paz voltado à Segurança Pública de Três Pontas, realizado na manhã de segunda-feira (27), Ana Gabriela atuou como facilitadora e contou com a colaboração de Isabel Maria Sampaio Oliveira Lima, sócia do Moinho de Paz – instituto sediado em Salvador (BA).

O Círculo deveria ser presencial, mas a pandemia do novo Coronavírus demandou inovação. A promotora revela que o trespontano Paulo Leandro de Carvalho e o belo-horizontino João Níkolas Vieira Guimarães serão facilitadores voluntários no projeto. Os três participaram de uma capacitação ministrada pelo Moinho de Paz, a fim de aperfeiçoar a prática circular virtual. Os facilitadores, que são igualmente participantes, exercem nos Círculos a função de auxiliar na construção de um espaço respeitoso e seguro, envolvendo o grupo na responsabilidade pelo trabalho comum.

A metodologia experimentada foi aprovada pelos participantes. “O círculo virtual se tornou mais uma ferramenta de integração das instituições que compõem o sistema de segurança e, acima de tudo, um instrumento de humanização das relações interpessoais. A troca de experiência foi gratificante e enriquecedora”, avaliou Dr. Gustavo Gomes, delegado de Polícia.

Na visão do capitão da PMMG, Júlio César Gomes Soares, “o trabalho realizado no formato de círculo e as reflexões que foram propostas abriram a oportunidade de conhecer com mais profundidade nossos companheiros de caminhada, bem como me levou a refletir sobre mim mesmo. Foi um momento singular e enriquecedor”, descreveu.

Justiça Restaurativa chegou a Três Pontas em 2018 priorizando ambiente escolar 

A teoria e a prática dos Círculos de Construção de Paz – que promovem relações mais sadias e estimulam o uso de estratégias cooperativas na resolução de conflitos – chegaram a Três Pontas em 2018, direcionadas a duas escolas municipais, outras duas estaduais e à Faculdade Três Pontas (Fateps). Na cidade, o projeto recebeu o nome de “Laços Restaurativos”.

Naquele ano, Dra. Ana Gabriela contou que 23 promotores de Justiça de diferentes comarcas de Minas Gerais haviam se tornado facilitadores e 25 profissionais ligados à área da educação em Três Pontas foram capacitados para aplicar o método em atividades pedagógicas e também nas cotidianas.

Em outubro, a “Justiça Restaurativa na Escola” foi tema do II Encontro Regional de Inspetores Escolares, evento realizado na sede da Superintendência Regional de Ensino de Varginha (SRE). Na oportunidade, a promotora de Justiça, Dra. Ana Gabriela, a especialista de Educação Básica, Dálete de Souza Maia Vicentini, e a doutora em Educação, Glória Lúcia Magalhães, apresentaram os resultados que a sociedade trespontana começava a colher: o passo dado rumo à mudança de lentes, com a transformação de relações e a busca de responsabilização em lugar do punitivismo.

Somente em junho deste ano o termo de cooperação técnica do convênio foi assinado, mas a demora para a formalização não impediu que alguns facilitadores,  maravilhados pelo potencial da Justiça Restaurativa, a propagassem.

Na pandemia, Dra. Ana Gabriela realizou Círculos com servidores das Promotorias de Justiça de Três Pontas e já começa a colocar em prática a intenção de ampliar os trabalhos, levando o método até profissionais da Segurança Pública. Na opinião da promotora, os professores formam outro segmento que, acredita, carece de atenção especial. “Em relação ao ambiente escolar, percebo que nós, geralmente, nos preocupamos muito com o conteúdo a ser passado para os alunos, mas não pensamos na situação dos professores, em como eles estão lidando com parentes doentes, com as novas ferramentas tecnológicas, com as questões de casa. Quem está olhando para essas pessoas? É importante criar espaços nos quais possamos partilhar essas angústias”, finaliza.

  • Ana Gabriela é titular da 3ª Promotoria de Justiça de Três Pontas. Atua, entre outras áreas, na defesa da educação e dos direitos de crianças e idosos, bem como na execução criminal. É mediadora, facilitadora de métodos de Justiça Restaurativa e responsável pela introdução dos Círculos de Construção de Paz na Comarca de Três Pontas.

“Fiquei muito feliz em participar do círculo, foi muito produtivo e enriquecedor”. (Gilson Andrade, diretor de Segurança do Presídio de Três Pontas)

“O círculo foi importante, pois é uma forma diferente de envolver e de conhecer as pessoas, em especial os companheiros envolvidos na lida diária da segurança pública de Três Pontas. Ainda que a pessoa conheça o método, é impossível não se envolver pelo ambiente que é formado e não compartilhar suas experiências verdadeiras”. (Maycon Saturnino Neves – tenente PM).

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